Palestras, oficinas, cine debate e apresentação teatral marcaram um dia de reflexão sobre saúde mental, inclusão social e direitos humanos
A Universidade Castelo Branco realizou, no dia 28 de maio, um evento dedicado à Luta Antimanicomial, reunindo alunos, professores e visitantes em uma programação voltada à conscientização sobre saúde mental e aos direitos das pessoas em sofrimento psíquico.
Promovida pelo curso de Psicologia, a iniciativa contou com palestras, oficinas, rodas de conversa, cine debate com a exibição do documentário “Estamira” e uma apresentação teatral que levou o público a refletir sobre temas como exclusão social, preconceito, sofrimento mental e acolhimento.



Mais do que uma atividade acadêmica, o encontro representou um momento de valorização da história de uma das mais importantes lutas sociais ligadas aos direitos humanos no Brasil, mas para entendermos melhor, é necessário contextualizarmos o que é essa causa.
A origem da luta
Celebrado anualmente em 18 de maio, o Dia Nacional da Luta Antimanicomial marca um movimento que teve início na década de 1970 e que buscou transformar o modo como pessoas com transtornos mentais eram tratadas no país. Até então, o modelo psiquiátrico brasileiro era baseado no isolamento e na exclusão social. Pessoas consideradas “indesejadas” pela sociedade eram frequentemente internadas em instituições psiquiátricas, sem o tratamento adequado.
Esses espaços funcionavam, em diversos casos, como verdadeiros depósitos humanos, onde milhares de pessoas viviam em condições degradantes e eram submetidas a graves violações de direitos.
Um dos Principais casos
Um dos exemplos mais emblemáticos desse período foi o Hospital Colônia, em Barbacena, Minas Gerais.
No local, os internos enfrentavam superlotação, fome, frio intenso e condições precárias de higiene. Muitos dormiam no chão ou sobre a grama, sofriam agressões físicas, abusos e eram submetidos a eletrochoques como forma de contenção. Sobreviviam à barbáries como, por exemplo, ter o esgoto como fonte de água para matar a sede e ter que ficar expostos às mais desumanas condições.



A instituição, criada para oferecer tratamento psiquiátrico, transformou-se em símbolo de violência e abandono. Para lá eram enviados moradores de rua, alcoólatras, usuários de drogas, homossexuais e outras pessoas marginalizadas, muitas delas sem qualquer diagnóstico de transtorno mental.



Estima-se que dezenas de milhares de pessoas tenham morrido no hospital ao longo de sua existência. O episódio ficou conhecido nacionalmente como “Holocausto Brasileiro”, expressão popularizada pela jornalista Daniela Arbex em um livro de mesmo nome, que documentou os abusos ocorridos na instituição. As denúncias começaram a ganhar repercussão nacional entre as décadas de 1960 e 1970, especialmente após reportagens produzidas pelo fotógrafo Luiz Alfredo e pelo jornalista Hiram Firmino, que revelaram ao país a realidade vivida pelos internos


O que Foi a Reforma Psiquiátrica?
Diante desse cenário caótico, surgiu no Brasil um movimento inspirado pela Reforma Psiquiátrica Italiana, liderada pelo psiquiatra Franco Basaglia, que defendia a reinserção social das pessoas em sofrimento mental e a construção de uma rede de cuidados baseada na liberdade e na convivência comunitária.
Basaglia criticava os manicômios por considerá-los espaços de exclusão e violência e ao visitar Barbacena, declarou estar diante de algo semelhante a um campo de concentração nazista.


No Brasil, uma das principais referências desse processo foi a psiquiatra Nise da Silveira, pioneira na utilização da arte e da terapia ocupacional como formas de tratamento humanizado. Contrária ao uso de eletrochoques e lobotomias, ela ajudou a construir novos caminhos para o cuidado em saúde mental.



O marco definitivo da luta ocorreu em maio de 1987, durante o 1º Congresso Nacional de Trabalhadores da Saúde Mental, realizado em Bauru, interior de São Paulo. Na ocasião, foi criado o lema “Por uma Sociedade sem Manicômios” e instituído o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.
Anos depois, o movimento conquistou uma importante vitória com a promulgação da Lei nº 10.216, de 2001, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, fazendo alusão ao autor do projeto. A legislação garante direitos às pessoas com transtornos mentais, prioriza tratamentos humanizados e estabelece o fechamento progressivo dos hospitais psiquiátricos.
A Psicologia da UCB: Um convite à reflexão
Dentro dessa proposta de conscientização e valorização da dignidade humana, a Universidade Castelo Branco dedicou um dia inteiro à discussão do tema.
Um dos momentos mais marcantes da programação, que contou com a presença de grandes profissionais da Psicologia, foi a apresentação da peça teatral “Uma Tomada de Decisão”, que convida o público a atravessar as fronteiras entre a sanidade, o sofrimento e a exclusão social e familiar.



A obra acompanha uma jovem de família tradicional e de classe média que vivencia o sofrimento psíquico em uma sociedade marcada por valores rígidos, preconceitos e estigmas, provocando reflexões sobre acolhimento, empatia e inclusão.


Com o tema “Luta Antimanicomial: Romper Muros, Escutar Existências – Um Convite à Escuta dos Silenciamentos”, o evento mobilizou estudantes, docentes e visitantes em torno de uma discussão necessária e atual.
Os esforços dos alunos do Núcleo de Psicologia, das ligas acadêmicas, dos professores e da coordenação para realizar esse evento dialogam diretamente com as lutas travadas ao longo das últimas décadas. São iniciativas que reforçam a importância de manter viva a defesa dos direitos das pessoas em sofrimento mental, reconhecendo os avanços conquistados e os desafios que ainda permanecem, na constante construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e humanizada.



Eventos como esse fortalecem a causa, enaltecem seus propósitos e honram a memória de todos aqueles que sofreram com essa barbárie ao longo da história.
E o curso de Psicologia da Universidade Castelo Branco trabalha diariamente para oferecer aos seus estudantes uma formação de qualidade, baseada em princípios éticos, humanitários e fundamentais para uma profissão cada vez mais necessária na sociedade, promovendo espaços de diálogo e reflexão como esse.





